Itajubá está entrando em uma nova fase de sua história econômica. Uma transformação que já pode ser percebida nas fábricas, nos novos investimentos, no mercado imobiliário, na construção civil, na procura por mão de obra e no movimento cada vez maior das ruas, restaurantes, supermercados, escolas e serviços da cidade.
Os números ajudam a explicar essa percepção.
A população oficial estimada de Itajubá chegou a 96.855 habitantes em 2025, segundo dados do IBGE. No Censo de 2022 eram 93.073 moradores. Mas olhar apenas para a população residente significa enxergar somente uma parte da cidade que efetivamente utiliza diariamente sua infraestrutura e movimenta sua economia.
Educação e tecnologia
Itajubá possui uma característica pouco comum para uma cidade de seu porte: a enorme presença do ensino superior. São instituições tradicionais como Universidade Federal de Itajubá — UNIFEI, Centro Universitário de Itajubá — FEPI, Faculdade de Medicina de Itajubá, Faculdade Wenceslau Braz e FACESM, além de outras instituições e polos educacionais.
O Observatório do Sebrae registra nada menos que 12.003 matrículas no ensino superior em Itajubá em 2024. Esse número corresponde a mais de 12% da população oficial da cidade. Evidentemente, nem todos esses alunos são moradores de fora e o número de matrículas não pode ser tratado diretamente como população flutuante. Mas ele demonstra a extraordinária dimensão do setor educacional para uma cidade com menos de 100 mil habitantes.
A UNIFEI é um dos principais motores dessa dinâmica. A universidade informa possuir mais de 8 mil estudantes matriculados em seu sistema, sendo o campus de Itajubá responsável pela maior parcela dos alunos presenciais. Ao redor desse ambiente universitário desenvolveu-se durante décadas um ecossistema de engenheiros, pesquisadores, startups e empresas de tecnologia que se tornou uma das principais vantagens competitivas do município.
A indústria voltou a avançar
Talvez o sinal mais evidente dessa nova fase esteja no setor industrial.
Em 2025, Itajubá confirmou a chegada da Aptiv, multinacional do setor automotivo presente em dezenas de países. O protocolo firmado com o município previa investimento de aproximadamente R$ 7,8 milhões, geração de 500 empregos diretos e 40 indiretos e uma movimentação operacional estimada em cerca de R$ 20 milhões por mês.
O projeto deixou de ser apenas anúncio. Em maio de 2026 tiveram início na cidade as atividades da Versigent, marca pertencente ao grupo Aptiv, consolidando uma das mais importantes atrações industriais recentes de Itajubá.
Também em 2025, a Cabelauto inaugurou uma nova linha de produção após aproximadamente R$ 30 milhões em investimentos. A ampliação adicionou cerca de dois mil metros quadrados à planta industrial e permitiu à empresa duplicar sua capacidade de fabricação de cabos de potência para média tensão, além da previsão de novos empregos.
Outro movimento importante ocorre na Balteau, pertencente ao Grupo WEG.
A WEG colocou Itajubá dentro de seu programa internacional de expansão da divisão de transmissão e distribuição de energia. Para a unidade local, foi anunciado investimento aproximado de R$ 83 milhões, envolvendo uma nova fábrica de cerca de 6 mil metros quadrados e a expectativa de dobrar a capacidade produtiva. O cronograma global divulgado pela companhia prevê conclusão dos projetos dessa etapa até dezembro de 2026.
A própria Balteau informa que sua primeira etapa de expansão já levou seu parque fabril para aproximadamente 14 mil metros quadrados, enquanto o município aprovou incentivos relacionados à continuidade dos investimentos da empresa.
E novos projetos continuam aparecendo.
Em maio de 2026, foi autorizada a destinação de uma área de aproximadamente 10 mil metros quadrados no Distrito Industrial Sérgio Pacheco para a AIDC Tecnologia, que projeta um ciclo de investimentos da ordem de R$ 15 milhões para sua nova estrutura fabril e logística.
A EMDEP Brasil também está em processo de ampliação. A legislação municipal estabelece a construção de um novo galpão destinado às atividades produtivas e a criação de pelo menos 20 novos postos de trabalho diretos, além da constituição de um grupo interno de Pesquisa e Desenvolvimento.
Em julho de 2026, outra lei municipal autorizou a doação de área para a Nigi Usinagem Indústria e Comércio, empresa instalada no Distrito Industrial e fornecedora de companhias dos setores de energia e aeronáutico.
Individualmente, alguns desses investimentos podem parecer pequenos diante de grandes projetos industriais nacionais. Quando observados em conjunto, porém, revelam algo muito mais importante: um processo contínuo de ocupação, expansão e fortalecimento do Distrito Industrial de Itajubá.
E existe um projeto que pode mudar novamente a escala industrial da cidade
Um dos movimentos mais importantes está acontecendo dentro da Helibras/Airbus.
A Airbus trabalha na possibilidade de produzir em Itajubá o helicóptero H145, utilizando a capacidade industrial da fábrica da Helibras após o encerramento do programa de produção do H225M.
Brasil e França assinaram em 2025 uma carta de intenções relacionada ao projeto e o Ministério do Desenvolvimento citou investimento potencial da ordem de R$ 1 bilhão. A implantação da linha ainda depende da consolidação de encomendas e contratos, portanto não deve ser apresentada como investimento já contratado. Mas, se concretizada, representará um dos maiores projetos industriais recentes da história de Itajubá.
Além do impacto direto sobre a Helibras, uma nova plataforma aeronáutica tende a movimentar engenharia, manutenção, fornecedores, usinagem, eletrônica, software, logística e serviços especializados.
É justamente nesse efeito multiplicador que Itajubá possui uma vantagem: a indústria existente conversa diretamente com o ambiente tecnológico e universitário da cidade.
Um complexo de inovação de aproximadamente R$ 425 milhões
Outro projeto capaz de ampliar essa característica é o Instituto SENAI de Inovação – Centro Empresarial de Desenvolvimento e Inovação da Indústria Elétrica e Eletrônica.
Em abril de 2026, foi anunciado novo financiamento do BNDES de R$ 122,8 milhões para o empreendimento de Itajubá. O investimento total projetado para o complexo é de aproximadamente R$ 425 milhões.
A importância do projeto vai além da construção física. Um centro dessa natureza aproxima laboratórios, universidades, pesquisadores e empresas e pode ajudar Itajubá a competir não apenas por fábricas, mas principalmente por centros de engenharia, pesquisa, desenvolvimento e empregos de maior valor agregado.
Uma economia de R$ 4,5 bilhões
Os números econômicos mostram que Itajubá já ocupa posição relevante no Sul de Minas.
Dados do PIB municipal referentes a 2023 colocam a economia itajubense em aproximadamente R$ 4,5 bilhões, mantendo Itajubá entre as maiores economias da região e na quinta posição do Sul de Minas naquele levantamento.
O Observatório do Sebrae aponta ainda aproximadamente 27 mil empregos formais em 2025 e mais de 14 mil empresas ativas em maio de 2026, considerando o conjunto de registros empresariais existentes no município.
São números expressivos para uma população inferior a 100 mil habitantes.
E ajudam a explicar por que a dimensão econômica de Itajubá é maior do que sua população residente poderia sugerir.
A verdadeira população de Itajubá durante o dia é maior
Esse talvez seja um dos aspectos menos percebidos quando se discute o crescimento da cidade.
Diariamente entram em Itajubá estudantes, trabalhadores, profissionais liberais, fornecedores, pacientes, consumidores e moradores dos municípios vizinhos.
Itajubá funciona como centro de uma região formada por cidades como Piranguinho, Brazópolis, Maria da Fé, Delfim Moreira, Wenceslau Braz, Piranguçu e outras localidades da Mantiqueira.
São pessoas que trabalham, estudam, fazem consultas médicas, frequentam hospitais, utilizam bancos, compram no comércio, contratam serviços, frequentam restaurantes e movimentam supermercados.
Por isso, a população economicamente presente em Itajubá durante o dia é certamente superior aos 96.855 moradores registrados nas estatísticas oficiais, embora hoje não exista um levantamento público suficientemente preciso que permita transformar essa percepção em um número confiável.
Esse cuidado é importante: população flutuante não deve ser simplesmente somada ao número de universitários. Mas os 12 mil registros de matrículas no ensino superior demonstram claramente a magnitude desse fluxo.
O mercado imobiliário já começou a responder
Outro indicador aparece nas ruas.
Novos edifícios, condomínios e loteamentos estão sendo comercializados ou desenvolvidos em diferentes regiões da cidade.
O mercado local apresenta, entre outros projetos, empreendimentos como Residencial Harmonia, Belvedere Residencial e Alto do Parque, enquanto outros produtos residenciais também aparecem em fase de lançamento e comercialização.
O próprio planejamento municipal identifica pressão sobre o mercado habitacional. Dos aproximadamente 40,4 mil domicílios registrados no Censo, cerca de 83% estavam ocupados, segundo documento municipal publicado em 2026.
E existe uma lógica por trás disso.
Uma nova indústria não gera somente demanda por galpões.
Ela traz engenheiros, gestores, técnicos, operadores e prestadores de serviços. Parte procura casas e apartamentos. Outra parte movimenta restaurantes, academias, escolas, supermercados e comércio.
Uma universidade também não movimenta somente salas de aula.
Ela movimenta aluguel, alimentação, transporte, entretenimento, serviços e construção civil.
É essa combinação que começa a transformar Itajubá.
O desafio agora é preparar a cidade para crescer
O crescimento traz oportunidades, mas também cobra planejamento.
Se os investimentos anunciados se confirmarem e as empresas instaladas continuarem expandindo suas operações, Itajubá precisará discutir de maneira cada vez mais séria mobilidade urbana, novas ligações viárias, habitação, saneamento, drenagem, energia, qualificação profissional, expansão comercial e disponibilidade de áreas industriais.
O desenvolvimento econômico não acontece apenas dentro dos portões das fábricas.
Cada novo emprego industrial possui efeito multiplicador sobre o comércio e os serviços. Cada estudante que chega movimenta moradia e consumo. Cada novo empreendimento imobiliário gera empregos e amplia a base tributária. E cada empresa tecnológica que nasce ou se instala ajuda a manter profissionais qualificados na cidade.
Indústria, conhecimento e tecnologia
Itajubá possui uma combinação que poucas cidades brasileiras de seu tamanho conseguem reunir: universidade tecnológica centenária, escolas de medicina e saúde, centros universitários, indústria aeronáutica, indústria elétrica pesada, setor automotivo, empresas de tecnologia, startups e uma localização estratégica entre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.
Por muitos anos, Itajubá foi conhecida principalmente como “cidade universitária” e “cidade da tecnologia”.
Os movimentos dos últimos anos indicam que uma terceira definição começa a ganhar força:
Itajubá está se consolidando novamente como cidade industrial.
E talvez o mais interessante seja justamente a combinação dessas três vocações.
Indústria, conhecimento e tecnologia.
Quando esses três elementos crescem juntos, o resultado não é apenas aumento de população.
É aumento de renda, valorização imobiliária, novas empresas, empregos mais qualificados e uma economia regional cada vez mais forte.
Itajubá não está apenas crescendo. Está mudando de escala.
Fonte: CDL Itajubá.